No último capítulo do livro Traduzir com autonomia: estratégias para o tradutor em formação, Fábio Alves, um dos coautores, propõe um modelo didático do processo tradutório, no qual ele integra as estratégias de tradução que são discutidas ao longo do livro. Neste post, apresentarei uma adaptação livre do modelo de Alves, pensando especificamente nos recursos estratégicos que de fato estão disponíveis para os cacdistas.

Alves desenvolve seu modelo de processo tradutório partindo do modelo do teórico alemão Frank Könings, o qual divide as atividades de tradução em dois blocos: o Bloco Automático e o Bloco Reflexivo. O Bloco Automático corresponde à primeira etapa do processo tradutório, na qual as Unidades de Tradução (UTs) já têm, para o tradutor, uma equivalência preestabelecida – ou seja, são tradutíveis automaticamente. O Bloco Reflexivo, por sua vez, é a segunda parte do processo, na qual o tradutor precisa recorrer à reflexão para traduzir as UTs restantes.

Considerando esse um modelo simplista, Alves propõe um modelo mais complexo, composto de sete etapas: automatização, bloqueio processual, apoio interno, apoio externo, combinação de apoios interno e externo, priorização e omissão de informações e, finalmente, aperfeiçoamento do texto de chegada. Como o cacdista não pode passar pelas etapas que incluem qualquer apoio externo, por não haver possibilidade de consultas durante a prova, apresento aqui comentários direcionados sobre as etapas propostas por Alves.

Em tradução, sabemos que não existe sempre equivalência um para um entre os itens lexicais dos pares linguísticos – se a equivalência sempre existisse, o processo tradutório se resumiria à substituição de uma palavra do texto de partida por uma palavra equivalente no texto de chegada, e a tradução seria simétrica e reversível. Essas equivalências automáticas, as quais são objeto da primeira fase do modelo de Alves, a Automatização, são, na verdade, uma parcela bem pequena da totalidade das UTs.

Quando o tradutor não encontra uma equivalência automática para uma UT, ele passa a operá-la no que Könings chama de Bloco Reflexivo. Entretanto, se por falta de competência linguística ou tradutória o tradutor não conseguir fazer essa operação, ele chega ao que Alves chama de Bloqueio Processual: nesse caso, o tradutor é levado ou à eliminação da UT do processo tradutório ou até, por vezes, à interrupção de todo o processo.

Para evitar o bloqueio tradutório, é essencial ter consciência das estratégias de tradução, as quais serão usadas no Bloco Reflexivo. Para o cacdista, isso significa estratégias de Apoio Interno, ou seja, “as operações mentais que envolvem os conhecimentos prévios do tradutor”. Nesse sentido, quando o tradutor utiliza como apoio conhecimentos já disponíveis sobre a UT, ele usa a memória; quando ele não tem esses conhecimentos prévios, recorre a mecanismos inferenciais (ver post sobre subsídios internos).

Na etapa de Priorização e Omissão de Informações, o tradutor toma decisões inter-relacionando texto, língua de partida e língua de chegada. Nessa etapa, o tradutor se questiona, por exemplo, sobre questões culturais e idiomáticas. Alves dá exemplos bastante elucidativos, mencionando algumas soluções de tradução para a seguinte frase:

“Sixteen years had Miss Taylor been in Mr Woodhouse’s family, less a governess than a friend.”

Alves conta que um tradutor optou por traduzir less a governess than a friend como “mais como amiga que como governanta”, para que o texto de chegada ficasse mais compreensível; outro preferiu traduzir Miss como “Dona”, e não como “Senhorita”, fazendo assim uma adequação do título, pensando na possível idade da personagem – e na consistência do texto de chegada.

Na etapa final, de Aperfeiçoamento do Texto de Chegada, o processo tradutório é revisado e as UTs consideradas insatisfatórias são aperfeiçoadas.

Preocupado com a didática da tradução e em oferecer uma opção metodológica para o treinamento de tradutores, a qual tivesse como base uma abordagem cognitiva, Alves propõe um modelo de processo tradutório. O modelo de Alves pode ser visualizado clicando aqui, porém proponho neste post um modelo livremente adaptado, tendo em mente especificamente as etapas que um cacdista pode percorrer na terceira fase:

Modelo livremente adaptado para Cacdistas
Modelo livremente adaptado para Cacdistas

Assim como no modelo de Alves, aqui os retângulos são etapas do processo tradutório, enquanto que os losangos são momentos de tomada de decisão – por isso estão acompanhados pelas alternativas “sim” ou “não”. Após a tomada da decisão, a seta indica a continuidade do processo.

Dou um exemplo de passos em um processo tradutório segundo esse modelo. Primeiramente, o candidato escolhe a UT que pretende traduzir. Então, pergunta-se se pode operá-la no Bloco Automático – ou seja, se a UT pode ser automaticamente traduzida, sem reflexão. Se sim, a tradução é efetuada e passa-se à próxima UT. Se não, passa a operá-la no Bloco Reflexivo. Se ela se encontrar em sua memória de longo prazo, a tradução é efetuada e passa-se à próxima UT; se não, o candidato tentará processar inferências locais e globais para tentar chegar a uma solução de tradução. Se chegar a uma solução, a tradução é efetuada e passa-se à próxima UT. Se não, o processo tradutório fica bloqueado até que a UT seja eliminada – ou brevemente deixada de lado (pode ser que a continuidade do texto ajude a recuperar a memória de longo prazo ou mesmo a processar inferências). No caso da possibilidade de uma solução de tradução, a UT é traduzida em um texto de chegada provisório – provisório porque não está completo e porque, após a tradução da totalidade das UTs, passará pelos processos de priorização e omissão de informações e de aperfeiçoamento.

É claro que esse modelo não tem a intenção, como ressalta Alves, de ser uma descrição de como se dá o processo tradutório em termos piscolinguísticos; a ideia é apresentar alguns possíveis caminhos que podem percorrer um tradutor em formação. Apesar de, da forma como está descrito, esse processo parecer ser longo e complexo demais para tarefas que os cacdistas normalmente procuram concluir em menos de uma hora, muitas dessas operações são realizadas quase que instantaneamente, principalmente por candidatos com um pouco mais de experiência em tradução. Assim, o modelo permite visualizar de forma organizada os processos psicolinguísticos envolvidos no processo tradutório, os quais podem ser desenvolvidos com exercícios de tradução e devem ser usados conscientemente nas tarefas da terceira fase.

Cheers!

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Além da delimitação consciente das Unidades de Tradução, outra estratégia que pode ser útil ao cacdista nas tarefas de tradução e versão na prova de inglês da terceira fase é o uso, também consciente, de subsídios internos, especialmente porque não é permitido o recurso a subsídios externos, como dicionários bilíngues em geral, textos paralelos ou glossários especializados. Neste post, continuarei reportando à discussão proposta por Fábio Alves no livro Traduzir com autonomia: estratégias para o tradutor em formação, no qual ele fala sobre dois subsídios internos: a memória e as inferências.

No que diz respeito à memória, Alves afirma que ela tem três funções principais: armazenar informações, recuperar informações armazenadas e esquecer informações. A melhor forma de armazenar informações é através do estabelecimento de associações, o que pode acontecer ou por contiguidade, ou por frequência. Isso quer dizer que as melhores formas de armazenamento de informação são por meio do inter-relacionamento de informações (contiguidade) e pela repetição do registro (frequência). Assim, a capacidade de recuperar as informações armazenadas depende, ao menos em parte, da elaboração de uma rede de informações associativa.

Quanto à recuperação da informação, Alves explica que a memória tem duas fases: a memória de curto prazo e a de longo prazo. A memória de curto prazo, a qual inclui a memória visual, é aquela processada quase instantaneamente: ela está sempre disponível e o acesso a ela ocorre quase que de forma inconsciente. Alves dá o exemplo das palavras house, car e dog, as quais, se nos apoiarmos na memória de curto prazo, não teremos dificuldades para traduzir de forma praticamente automática. Entretanto, esses automatismos são perigosos no processo tradutório, já que a tradução requer reflexão consciente. No caso da palavra dog, por exemplo, traduzi-la como cachorro na frase it is raining cats and dogs poderia ser visto como não idiomático. Por isso, Alves argumenta que o processo tradutório se beneficia mais do apoio da memória de longo prazo, a qual ele define como “forma estável de codificação de informações que nos permite sua recuperação consciente por intermédio das redes associativas”. Para Alves, quanto maior o número de associações, maior a capacidade de recuperar a memória. Para ilustrar o que seriam essas redes associativas, Alves apresenta este mapa conceitual:

'Traduzir com autonomia", p. 63.
“Traduzir com autonomia”, p. 63.

Além da memória, há outro mecanismo cognitivo que funciona como subsídio interno no processo tradutório: a capacidade de produzir e processar inferências. Inferir é obter informações que não estão disponíveis de forma direta, e as inferências podem ser de caráter local ou global.  Inferências locais são raciocínios dedutivos possibilitados pelo caráter coesivo do texto. Por exemplo, no diálogo “A: Have you seen Peter? B: He has gone home”, se a frase He has gone home estivesse sozinha, não poderíamos concluir que foi Peter que foi para casa; entretanto, a inferência é possível com as duas frases, devido ao caráter coesivo de he.

Inferências globais, por sua vez, são aquelas que dependem da percepção de relações que vão além das de coerência, dependendo muitas vezes do conhecimento de mundo, por parte do tradutor. Por exemplo, veja a seguinte frase, tirada de um texto com o qual normalmente trabalho com meus alunos:

“It would go to quartering Redcoats to keep away marauding Indians, or to inhibit revengeful ‘Frogs.'”

A compreensão e a tradução desse trecho dependem de inferências globais, já que o tradutor precisaria ter o conhecimento de mundo de que Redcoats (“Casacas Vermelhas”) era o nome dado aos soldados britânicos e de que Frogs é um ethnic slur para “franceses”.

Ter consciência desses recursos de apoio interno é importante para evitar, na terceira fase, problemas tradutórios diversos, como automatismos inapropriados ou mesmo um bloqueio processual. No próximo post, pretendo comentar o capítulo final do livro Traduzir com autonomia, no qual Alves propõe um modelo didático para o processo tradutório, integrando as estratégias de tradução que vimos nesse post e no anterior, ou seja, a delimitação das Unidades de Tradução e o recurso consciente a mecanismos de apoio interno.

Cheers!

Referências:

PAGANO, A.; MAGALHÃES, C.; ALVES, F. Traduzir com autonomia: estratégias para o tradutor em formação. São Paulo: Contexto, 2011.

Observar com cuidado as palavras que são escolhidas pelo autor de um texto pode nos dar indicações do que o autor quer dizer – e consequentemente do que ele não quer dizer. Para isso, é preciso que o leitor perceba não só as ideias do texto, mas com que palavras e expressões o texto é escrito. Isso é essencial porque quando o leitor observa esse tipo de detalhe, ele consegue fazer inferências válidas.

Mas o que significa fazer inferências? Inferências são conclusões às quais chegamos com base no raciocínio, em fatos ou evidências. Boas inferências dependem de uma boa observação das palavras escolhidas pelo autor e podem ajudar a determinar o que o autor quer dizer, ainda que isso não esteja expresso no texto de forma clara. No post passado, quando falamos sobre a importância de identificar o ponto de vista adotado pelo autor, acabamos fazendo inferências: presumir como o autor gostaria de ser percebido – ou que tipo de relação ele pretende estabelecer entre o leitor e suas ideias – com base no ponto de vista adotado é fazer uma inferência válida.

Proponho o seguinte exercício, do livro “Reading Comprehension Success”, para que entendamos melhor a importância da escolha das palavras por parte do autor e como podemos fazer inferências a partir dessa escolha:

Test your observation skills on these two sentences:

A. The town’s new parking policy, which goes into effect on Monday, should significantly reduce traffic congestion on Main Street.

B. The town’s draconian new parking policy, which goes into effect on Monday, should significantly reduce traffic congestion on Main Street.

É óbvio que a única diferença entre as duas frases é a palavra “draconian” (=”extremely severe”). Mas o que o uso dessa palavra tão específica nos revela?

What does sentence B tell you that sentence A doesn’t?

a. what type of policy is being discussed

b. how the writer feels about the policy

c. when the policy begins

A resposta correta é a alternativa B. Ao escolher usar a palavra “draconian”, o autor sugere que é assim que ele se sente em relação a essa nova medida. Sua opinião, dessa forma, pode ser inferida por sua escolha de palavras (sua diction).

Agora imaginemos, como ainda propõe o mesmo livro, que a frase A tivesse um outro adjetivo:

The town’s firm new parking policy, which goes into effect on Monday, should significantly reduce traffic congestion on Main Street.

Agora as frases querem dizer a mesma coisa? Sim e não. Ambos “firm” e “draconian” querem dizer que a medida é severa, mas “draconian” sugere que ela é mais severa, e além disso injusta. Isso quer dizer que mesmo que duas palavras sejam sinônimas, elas podem ter níveis diferentes de significado, e isso se chama em inglês connotation. Se denotation é o significado da palavra como dado pelo dicionário, connotation é o significado implícito, um significado que tem um registro social ou emocional, ou ainda que sugere alguma noção de gradação. Assim, a escolha da palavra não revela apenas o que ela significa, mas possibilita fazer inferências sobre as intenções e os sentimentos do autor.

Cheers!