Icones-sem-marca_Com-papel-Sombra_TRANSLATION

Não é raro ouvir ou ler comentários de CACDistas sobre como as tarefas de tradução da prova de inglês, na terceira fase, se resumem a uma questão de sorte: ou você tem a sorte de abrir a prova e encontrar um texto recheado de palavras que você conhece, ou não. Essa percepção com alguma frequência serve como justificativa para que uma porção muito pequena – quando não inexistente – do planejamento de estudos de língua inglesa para o concurso seja dedicada a essas tarefas.

É claro que contar com a sorte é algo mais que desejável nessas (e em todas outras!) tarefas, visto que os textos selecionados costumam ser bem complexos e que não é permitido o acesso a nenhum apoio externo. Isso, entretanto, não significa que tradução é sorte e que não há nada que se possa fazer em termos de preparação para essas tarefas. Muito pelo contrário. Neste post, discutirei a importância de dedicar tempo à tradução na preparação para o concurso.

Traduz melhor quem conhece mais palavras.

Um texto não é um aglomerado de palavras meramente justapostas – se fosse, talvez conhecer palavras fosse suficiente para o ato tradutório. Em um texto, as palavras se relacionam de várias formas, em termos tanto semânticos, quanto morfossintáticos, culturais, ideológicos etc. Não traduz melhor quem conhece mais palavras; a tradução depende de vários fatores, como compreender essas relações estabelecidas no texto fonte e ter competência linguística no idioma de chegada. Isso sem contar a discussão sobre o que significa “conhecer uma palavra”, já que uma palavra pode ser polissêmica e ter sentidos que desconheço, ou ela pode ser usada em uma expressão fixa que eu não compreendo, ou, ainda, ela pode ser conhecida apenas “passivamente” (eu entendo seu sentido quando a ouço ou a leio), mas não “ativamente” (eu não sei como usá-la ao falar ou escrever). E daí também a necessidade de se compreender que dicionários bilíngues têm escopo limitado: os verbetes correspondem a palavras e locuções, mas as traduções sugeridas não compreendem todas as possibilidades de contextos nos quais certa palavra ou locução poderia ocorrer (e a tradução depende essencialmente do contexto, já que é nele que estão estabelecidas as relações entre as palavras).

Mas eu falo bem português e inglês…

Ter bons conhecimentos de dois idiomas não significa ser capaz de traduzir de um idioma para o outro. Tenho poucos colegas tradutores que se dedicam a mais de um par linguístico; muitos deles têm excelentes conhecimentos de língua portuguesa e de língua inglesa (e, em alguns casos, de mais idiomas) e, ainda assim, optam por trabalhar ou apenas com tradução de inglês ou apenas com versões para o inglês (sem mencionar que a imensa maioria deles restringe a área de atuação: traduções literárias, área jurídica, tecnologia da informação etc.). Traduzir envolve uma série de conhecimentos, reflexões e decisões que não costumam fazer parte dos processos envolvidos na comunicação em um idioma estrangeiro. Além disso, se pensarmos a tradução como uma habilidade, é preciso praticá-la, e muito, para produzir um resultado satisfatório. Se me permite a comparação, é um pouco como tocar um instrumento musical: eu estudei em conservatório por algum tempo, li algumas obras sobre teoria musical e musicologia e tenho boa percepção musical, mas, como não tive a disciplina de “praticar até a perfeição”, não há muita coisa que eu saiba fazer quando estou na frente de um piano.

Importante mesmo é treinar para a redação!

A redação é, de fato, a tarefa mais importante da prova de inglês da terceira fase, já que só essa tarefa vale 50 pontos em uma prova que vale, no total, 100 pontos. No entanto, isso não quer dizer que os 35 pontos que correspondem às tarefas de tradução possam ser deixados a cargo da sorte. Sabemos que a aprovação no concurso acaba sendo decidida, muitas vezes, por apenas um ponto (quando não por décimos). Além disso, a banca costuma ser composta por professores da área de tradução (como Ofal Fialho e Mark David Ridd, em 2015), o que não garante que não aconteçam problemas nas correções das tarefas, mas ao menos pode ser considerado um indício da importância dessas tarefas na prova – e talvez da importância da tradução de forma mais ampla, como argumentarei a seguir.

Eu quero ser diplomata, não tradutor.

Translation is not the preserve of translators. Há tantas instâncias de nossa vida, pessoal e professional, em que a tradução se faz presente, e muitas vezes de forma inconsciente. E algo que é crucial destacar para os propósitos deste post é que aprender a traduzir de forma consciente e crítica pode ajudar a melhorar a competência em inglês de forma geral.

Vou me deter um pouco nesse argumento, inclusive fazendo referência a um excelente artigo escrito por Mark David Ridd e Maria Carolina Calvo Capilla. Existe algum consenso, entre estudiosos, de que a aprendizagem de uma língua estrangeira (LE) passa pelo filtro de nossa língua materna (L1): com base na L1, elaboramos hipóteses para a aquisição da LE. Nesse processo, podemos identificar transferências e interferências; o conhecimento prévio da L1 pode ser corretamente aplicado na LE, o que auxilia a aquisição da LE (transferência), mas esse conhecimento pode não ser aplicável à LE, o que resulta em erros (interferência).

Muitas vezes, os erros ocasionados por interferências não impedem a comunicação (quem nunca perguntou para o professor de inglês se aquele errinho de preposição realmente impediria que o falante nativo compreendesse sua mensagem?). Assim, ou por falta de necessidade comunicativa de melhorar a competência no idioma, ou por simples falta de percepção da existência das interferências e dos erros, muitos estudantes de LE acabam não conseguindo chegar ao nível de proficiência na LE, atingindo um plateau e ali ficando estacionados em seu processo de aprendizagem. O estudante nessa situação fala uma espécie de interlíngua – no nosso caso, um tipo de “portuglês” – que poder dar conta de diversas situações comunicativas, mas certamente não passa perto do que exames de proficiência e a própria prova de inglês do CACD exigem. E o problema fica pior quando, por não serem corrigidos, esses erros de interferência acabam sendo repetidos e finalmente fossilizados.

Se a L1 é o modelo que inicialmente adotamos quando da aquisição de uma LE, faz muito sentido que esses dois idiomas sejam conscientemente e criticamente contrastados, já que isso pode ajudar a incentivar transferências e a evitar interferências. E o que é a tradução se não uma atividade de confrontação explícita e reflexiva de um par linguístico? Hoje em dia, são muitos os estudiosos, como o próprio Mark David Ridd, que acreditam que a tradução deve ser usada, em cursos de idiomas que têm como base métodos comunicativos, como forma de conscientização das relações em L1 e LE no processo de aprendizagem com o objetivo de facilitar a aprendizagem por transferências, diminuir a ocorrência de interferências, evitar a fossilização de erros e, em última instância, possibilitar que um número maior de estudantes atinja a tão almejada proficiência na LE.

Ok, então se eu entendi direito…

Treinar para as tarefas de tradução é essencial para o CACDista porque não basta comunicar-se bem em português e inglês bem para traduzir bem. Em um concurso em que qualquer meio ponto pode significar ou a posse ou pelo menos mais um ano de estudos, todas as tarefas da prova de inglês são importantes. Além disso, ao treinar para as tarefas de tradução, você perceberá que alguns de seus erros em outras tarefas, como na redação, estão relacionados a interferências da língua portuguesa, e essa consciência crítica é essencial para que você aprimore sua competência em inglês em todas as tarefas da prova de inglês – e, possivelmente, isso terá efeitos positivos no processo de aprendizagem de outras línguas estrangeiras e em contextos de uso desses idiomas que vão muito além do CACD.

No próximo post, discutirei algumas formas de estudar tradução.

Cheers!

Anúncios

Dear readers,

Primeiramente, happy new year! Que este seja um ano de muitas conquistas para todos!

Retomamos as atividades aqui no blog com um relato escrito por Riane Tarnovski, aprovada no CACD 2015. Espero que suas dicas de estudo sejam úteis e que os motivem para um ano de estudos, foco e determinação!

Cheers!

                “Olá! Foi-me solicitado um relato de minha preparação para passar no CACD, e aqui segue uma breve explanação de meus estudos. Iniciei a jornada no segundo semestre de 2011, um pouco antes de me formar na graduação, o que totaliza 4 anos e meio de estudos. É imprescindível esclarecer que toda a minha preparação foi em Florianópolis/SC, longe dos “grandes centros” de cursinhos (Bsb, RJ e SP), o que traz uma dificuldade adicional em termos de bons cursos e professores direcionados para o concurso. Os primeiros dois anos foram apenas de estudos: curso regular e avançado no Clio, estudo de línguas com professores particulares de espanhol, francês (depois de cursos intensivos na Aliança Francesa) e inglês. Fiz curso de redação de português e inglês no Clio, o que pode ser bom para quem é iniciante, mas deixa muito a desejar para quem quer passar efetivamente. No início (2011-2012), queria abraçar o mundo e fazer absolutamente tudo que o cursinho dizia: estudava de 10-12h por dia e lia absolutamente TUDO que era passado. Erro. Pragmatismo é a alma do negócio. Até vale a pena ler algumas obras completas, mas apenas algumas. Para mim, o mais importante era compilar e sistematizar o que era lido para uma futura revisão; caso contrário, o conteúdo irá esvair-se na miríade de assuntos que temos de estudar para a prova.

Comecei a trabalhar em junho/2013 no Tribunal de Justiça de SC, um concurso que passei graças aos estudos do CACD mesmo. De lá pra cá, o estudo tornou-se muito pragmático e focado. Já estava na fase de aprofundamento e de “aparar arestas”. E que arestas são essas? São os autodiagnósticos que fazemos após o concurso de cada ano: o desempenho deixou a desejar em qual(ais) disciplina(s)? Então essas merecem maior atenção no ano seguinte, tendo em mente que línguas e PI são de estudo constante.

Montei cadernos digitais (no Word mesmo) de cada uma das disciplinas e fui atualizando ao longo desses 4 anos e meio. Notícias e dados importantes de PI saíam dos jornais e iam direto para o caderno. Lembre-se de que você precisa lembrar daquilo que leu na hora da prova, por isso a revisão é sempre tão importante. Com os anos, foram surgindo cursinhos online MUITO bons, como Sapientia, IDEG, Espaço Zeitgeist e Ciclo EAD. Como em qualquer cursinho, alguns professores se destacam mais que outros. Mas pelo menos era possível escolher a matéria (e o prof.) de cada um. Os cursos de exercícios sempre me foram muito caros, pois me forçavam a fazer revisões periódicas. E, como repetirei mais à frente, REVISÃO É ESSENCIAL.

Em todos os anos de preparação, fui melhorando minha pontuação. Sei que não são todos os candidatos que são assim, mas funcionou comigo, o que me motivava muito. Em 2014, concorria com apenas 17 vagas e, no resultado final, fiquei na 33ª colocação. Analisei minha pontuação com as dos aprovados e percebi que a deficiência estava na prova de Inglês da 3ª fase, assim como eu poderia melhorar em PI-GEO. No interregno entre o CACD 2014 e o CACD 2015, foquei as energias em línguas e PI (sinceramente, pode cair qualquer coisa em GEO!). Esse foi o momento em que meu estudo de 3ª fase para inglês foi revolucionado. Em Florianópolis, simplesmente NÃO EXISTE professor de inglês para a 3ª fase do concurso, então tive de buscar auxílio online. Foi quando me indicaram a profa. Selene Candian. Ela tem uma correção meticulosa e detalhista, e mais: além da correção, ela apresenta sugestões de melhoria e de substituição. Recomendo-a, juntamente com a correção via Skype, que reforça a correção e cria uma espécie de revisão de cada simulado.

Uma última dica valiosa na minha preparação que me ajudou a sempre melhorar as notas ao longo dos anos é TREINO. Com disciplina e treino, é questão de tempo até passar. Treinar e simular TODAS AS FASES é imprescindível! Somente com treino é que se consegue a serenidade e a confiança de que se terminará a prova no tempo aprazado. Claro que o CACD mede conhecimento e inteligência, mas sem treino para a prova não se passa. A parte da manhã da 1ª fase parece uma maratona, assim como a prova de inglês de 3ª fase (que não dá tempo de fazer quase nenhum rascunho) e as de francês e espanhol! Por isso é tão importante simular a situação real de prova: coloque-se em um ambiente silencioso, com uma garrafa de água, canetas pretas com tubos transparentes, lanche saudável e CRONOMETRE. De nada adianta se você não cronometrar.

O meu estudo para a 2ª fase iniciou-se junto com o da 1ª fase. Como tudo na vida, é questão de treino e costume: acostumar-se a escrever de forma bem objetiva e sem metáforas. De repente, existe muita linguagem metafórica da qual não tínhamos nos dado conta! Nada que treino e um bom professor de Língua Portuguesa não resolvam. No meu caso, encontrei a melhor professora pra mim (tanto para a 1ª quanto para a 2ª fase): Claudia Simionato. Eu busquei, busquei, busquei… tive aula com muitos professores (online e presencial), e simplesmente não encontrei ninguém à altura dela. Sei que a sintonia aluno-professor também conta muito, talvez por isso aprecio tanto a aula dela, mas a Simionato tem um diferencial universal: ela realmente conhece a prova e a correção da banca a fundo. Isso transmite confiança para que o candidato escreva sem medo de que será penalizado.

Muitas pessoas já iniciam o estudo de 3ª fase antes mesmo de passar na 1ª. Com exceção de línguas (inglês, francês e espanhol), não acho que isso seja imprescindível. Eu só estudei especificamente para a 3ª fase depois de passar na 1ª (com exceção de línguas), até porque a quase totalidade do assunto já havia sido explorada para a 1ª fase. Estou insistindo muito na prova de línguas porque, desde 2011, com número de vagas reduzido, elas têm-se tornado fundamentais para a aprovação. Além disso, uma disciplina em que, normalmente, os candidatos não tiram nota alta na 3ª fase é História do Brasil. E, assim como fiz jus aos trabalhos da Simionato e da Selene Candian, preciso exaltar o trabalho incrivelmente fenomenal do João Daniel. Você, candidato de longe dos “grandes centros”, não deixe de aproximar-se desse professor incrível, nem que seja online. Este foi meu caso, por exemplo. Ainda não o conheço pessoalmente, mas admiro-o como grande mestre que foi e é. Ele acreditou em mim e no meu potencial. Ele leu minhas respostas meticulosamente e chamou-me a atenção – inúmeras vezes – para meus erros mais frequentes. Sem contar que assistir a uma aula dele é tão prazeroso quanto ir ao cinema!

Caros, espero ter ajudado de alguma forma. Boa sorte para quem inicia e para quem está nesse caminho. Ele pode ser longo, mas certamente será cheio de boas surpresas e de pessoas maravilhosas.”

Word of the week é uma publicação semanal de dicas de itens de vocabulário que parecem ter chamado a atenção do examinador em compositions (no quesito Qualidade da Linguagem) de concursos passados. Sempre que possível, ela também traz dicas de usage e de synonyms relacionadas a esses itens. Acompanhe a lista completa no site Vocabulary.com!

thwart

Thwart é um transitive verb que pode ser traduzido como “opor-se a, contrariar, frustrar, impedir”. Veja alguns exemplos:

Fierce opposition thwarted the government’s plans.

The government had been able to thwart all attempts by opposition leaders to form new parties.

Firms usually cut prices as part of the competitive process, not in an attempt to thwart it.

O verbo é normalmente considerado sinônimo de baffle, frustrate foil, mas é importante notar que há algumas pequenas diferenças de sentido (veja mais em synonym discussion of thwart). Alguns de seus antônimos são encourage, fosterpromote.

No que diz repeito a collocationthwart é com frequência usado com substantivos como ambition, attempt, attacks, progress efforts. Por exemplo:

An opposition politician also raised questions about the ability of Jordanian intelligence to thwart attacks.

Miscommunication and distrust will thwart progress in the region.

Cheers!

Fontes:

Corpus of Contemporary American English

Dicionário Porto de Inglês-Português

Foreign Affairs

Longman Dictionaries Online

Oxford Collocations Dictionary

Oxford Dictionaries