“So difficult it is to show the various meanings and imperfections of words when we have nothing else but words to do it with.”

~John Locke

 

Por muito tempo, as palavras foram pensadas como a principal unidade gramatical e lexical. Gramaticalmente, conhecemos as palavras como verbos, substantivos, adjetivos, advérbios… Em termos de léxico, os dicionários são normalmente organizados em verbetes, em ordem alfabética, os quais correspondem a palavras.  Nessa forma de ver a linguagem, um texto seria uma sequência de palavras sintaticamente organizadas. Para produzir um texto, portanto, bastaria escolher quaisquer palavras ‘que fazem sentido’ e organizá-las de acordo com as regras gramaticais.

A essa visão da linguagem subjaz a presunção de que a gramática é regular e de que o léxico é irregular, ou seja, de que há padrões gramaticais a ser observados na construção de um texto (concordância, transitividade etc.), mas de que não haveria algo como “padrões lexicais”. No entanto, o desenvolvimento da linguística de corpus, nas últimas décadas, nos abre os olhos para o exato oposto dessa presunção: o léxico não é “irregular”; as palavras em um texto não estão organizadas apenas por relações sintáticas, mas também por relações lexicais; os padrões sintáticos e os padrões lexicais não podem ser separados.

Isso pode parecer uma conversa “muito técnica” para quem está “só” estudando inglês para passar no CACD (muitas aspas por aqui rs), mas assim como a dicotomia entre gramática e léxico tem sido questionada, a dicotomia entre teoria e prática também precisa ser repensada. Afinal, quem está “só” estudando inglês para passar no CACD será avaliado por uma banca que conhece a teoria e que espera que a prática dos candidatos esteja alinhada a ela (como veremos em comentários da própria banca abaixo).

Por isso, para quem está “só” estudando inglês para passar no CACD, é absolutamente fundamental, em seus estudos de vocabulário e de produção de texto em língua inglesa, pensar a questão do sentido para além das palavras isoladas. Neste artigo, discutirei como a escolha de palavras para um texto é limitada tanto por restrições gramaticais quanto por restrições lexicais. Abordarei os conceitos de collocation e colligation, e a relevância dessa discussão “muito técnica” para seus estudos de língua inglesa para o CACD.

Collocation

Se abrirmos um thesaurus (um dicionário de sinônimos) no verbete strong, encontraremos entre seus sinônimos a palavra powerful. Isso significa que seus sentidos são semelhantes. No entanto, é natural dizer, em inglês, I prefer strong tea, mas não I prefer powerful tea. Isso porque, ao escolhermos usar a palavra tea, existe, concomitantemente, uma co-seleção de adjetivos que são, de fato, usados com essa palavra. Essa co-ocorrência frequente de palavras é o que chamamos de collocation. Assim, nas palavras de Mona Baker, “meaning cannot always account for collocational patterning”: muito embora a palavra powerful isoladamente faça “sentido”, ela simplesmente não é usada em combinação com tea.

Isso acontece porque as palavras tendem a ocorrer juntas e a formar sentidos em sua combinação. É a combinação que faz sentido, não a palavra individualmente. Como explica John Sinclair, “the flow in meaning is not from the item [word] to the text but form the text to the item [word]”. Dou um exemplo paradigmático: na collocation “white wine”, white não quer dizer “something that is the same color of milk or snow”. White wine is not “white”! Mas o adjetivo white ganha sentido porque a combinação lhe confere sentido. Existe, portanto, uma interdependência entre a palavra e as outras palavras que a cercam. Quando essa dependência é lexical, ela e chamada de collocation.

Esse fenômeno da collocation não é restrito a uns poucos casos: a maior parte dos sentidos necessita da presença de mais palavras para sua realização. É por isso que John Sinclair afirma que “the word is not the best starting-point for a description of meaning, because meaning arises from words in particular combination”. Não estou aqui discutindo phrasal verbs, idiomatic expressions, set phrases ou provérbios; nesses casos, é bem óbvio que não há independência entre as palavras: ao escolher uma das palavras que formam essas multi-word expressions, já automaticamente co-selecionamos todas as outras. A discussão aqui é sobre a escolha de palavras em geral. Um texto não deve ser pensando como uma série de escolhas de palavras independentes: há padrões de combinações que são responsáveis pelo sentido, pela naturalidade, pela espontaneidade do texto. Nas pesquisas mencionadas por John Sinclair, cerca de 80% da ocorrência de palavras se dá não por escolhas independentes, mas sim por co-seleção. Em suas palavras, “a large proportion of the word occurrence is the result of co-selection—that is to say, more than one word is selected in a single choice”.

Dessa forma, ainda segundo Sinclair, “complete freedom of choice, then, of a single word is rare”. Ao escolhermos uma palavra para usar em um texto, automaticamente já devemos co-selecionar outras, não só com base em seus sentidos, mas sim em com qual frequência elas de fato ocorrem com a palavras que já selecionamos. Afinal, de acordo com Sinclair, “language is characterized by having hundreds of thousands of meanings that are not in fact available”.

O que vimos até agora, ao discutirmos collocation, é que 1) não existe liberdade completa na escolha de palavras, já que são as combinações que conferem sentido às palavras e que 2) por isso mesmo, a palavra como menor unidade lexical é algo muito problemático em termos de sentido. O léxico é, ao contrário do que muitos pensam, altamente “regular”: há tendências fraseológicas, padrões lexicais, que precisam ser observados para que de fato se produza sentido em um texto. Assim, a escolha de palavras é limitada por restrições lexicais.

Colligation

A escolha de palavras, além disso, também é limitada por restrições gramaticais. A escolha de uma só palavra pode determinar um padrão sintático. Por exemplo, se quero usar a palavra able, em uma construção como “capaz de fazer algo”, automaticamente já seleciono o complemento desse adjetivo: able to do something, não “able of doing something”. Já quando seleciono o substantivo possibility, em uma construção como “possibilidade de fazer algo”, automaticamente já seleciono o complemento: possibility of doing something, não “possibility to do something”. Não há uma “regra gramatical” aqui; o que se observa é o fenômeno da colligation, que é a co-ocorrência de palavras com escolhas gramaticais. Ao usar a palavra able naquela construção, é preciso co-selecionar o verbo no infinitivo; ao usar a palavra possibility naquela construção, é preciso co-selecionar o sintagma preposicional. A co-seleção, aqui, afeta a gramaticalidade do texto.

Mais uma vez, vemos como a escolha de palavras não é livre: ao selecionar uma palavra, já selecionamos, inclusive, padrões sintáticos. A gramática, portanto, não é autônoma ou completamente separada do léxico.

Relevância para o CACD

Não há dúvidas de que a banca conhece e reconhece tais padrões lexicais e sintáticos. Copio, aqui, alguns comentários escritos pelo examinador em respostas a recursos interpostos no CACD 2017:

“A colocação correta para o contexto é ‘on’, como no exemplo ‘She’s by far the biggest influence on my writing’.”

“’Surprising for’ mal aparece em corpora em geral e quando o faz, raramente se trata de fonte confiável, que siga os preceitos da norma culta”

“A expressão ‘to create something in aspects’ carece de idiomaticidade, pois as regras de colocação foram violadas aqui.”

“Há, aqui, um erro de colocação. A escolha lexical ‘afffordable dream’ não é uma combinação viável, pois carece de idiomaticidade.”

“Há, aqui, um erro de colocação. A escolha lexical ‘handle negotiations’ não é uma combinação viável, pois carece de idiomaticidade. Verbos que se colocam com ‘negotiations’ são, entre outros, ‘enter into, open, conduct.”

“A combinação lexical ‘unavoidable countries’ carece de idiomaticidade. Ferem-se, aqui, as leis de colocação.”

 

Cito aqui também alguns exemplos de textos de candidatos em que a parte grifada foi considerada errada por causa de colligation:

He also argued that the homogeneous aspects of capital flows are still to capable to impose their global power.

Although one cannot agree with Carl Gustav Jung about the difficulty to disturb the security (…)

Fica mais do que patente, considerando todos os exemplos acima, que collocations e colligation não são preocupações “muito técnicas” para quem “só” estuda inglês para passar no CACD: a banca reconhece, em suas correções e respostas a recursos, que a escolha de palavras não é livre e que há padrões lexicais e sintáticos que devem ser observados. E isso é algo que deve interferir na forma como você estuda vocabulário e produção de texto para o concurso! No próximo post, discutirei algumas estratégias de estudo para candidatos que sabem que é preciso pensar além das palavras isoladas para produzir textos com “correção gramatical e propriedade da linguagem”, um critério de correção que existe para todas as quatro tarefas da prova discursiva de inglês no CACD.

Cheers!

 

Bilbliografia

Mona Baker. In Other Words: a coursebook on translation. Routledge, 2011.

John Sinclair. Trust the Text: language, corpus and discourse. Routledge, 2004.

“The more that you read,

The more things you will know.”

~Dr. Seuss

 

Em seu livro I Can Read With My Eyes Shut, Dr. Seuss, pseudônimo do escritor norte-americano Theodor Seuss Geisel, mostra para o público infantojuvenil como a leitura pode ser algo divertido e também uma fonte de conhecimentos. A leitura pode ter diversos objetivos, usos e resultados, para além da diversão e do conhecimento, sendo que um deles é aprender a ler fluentemente. Sim, one learns to read by reading! Assim, reformulando a epígrafe de autoria de Dr. Seuss, “the more that you read, the better you will become at it”.

Mas como usar a própria leitura como instrumento para aprender a ler com fluência — no nosso caso, para ler fluentemente na língua inglesa? Quando estudamos uma língua estrangeira, as atividades que realizamos em sala de aula normalmente são de intensive reading: o professor seleciona um texto que deve ser estudado pelos alunos praticamente linha a linha, com consultas frequentes a dicionários, para que as palavras e os sentidos do texto sejam devidamente compreendidos. Atividades de intensive reading são importantes para desenvolver algumas habilidades de leitura, mas o fato é que elas não ajudam a desenvolver a leitura fluente.

O que realmente contribui para o desenvolvimento da leitura fluente é o que chamamos extensive reading. Podemos resumir esse tipo de atividade de leitura em quatro pilares:

  1. É você (não o professor) que escolhe o que vai ler e quanto vai ler (e você pode desistir se, no meio da leitura, perder o interesse);
  2. O propósito da leitura é a compreensão geral do texto (não palavra por palavra) e o prazer de ler;
  3. Os materiais selecionados para a leitura devem estar de acordo com a sua competência linguística;
  4. A leitura é feita individualmente e em silêncio.

Ao ler esses quatro pilares, alguém poderia pensar: “então, extensive reading é simplesmente reading”. Sim! Nas palavras de Day & Bamford, em seu livro Extensive Reading in the Second Language Classroom, extensive reading é “real-world reading but for a pedagogical purpose”. A ideia é tratar o texto não como um objeto de estudos de uma língua estrangeira, mas sim como um objeto de uma experiência literária, um objeto de prazer.

A abordagem pode parecer counterintuitive, mas há décadas de pesquisas e publicações por trás da sua defesa. Uma das teorias que dá suporte à abordagem está relacionada à área da psicologia cognitiva. Segundo essa teoria, a base da leitura fluente é o reconhecimento automático de palavras. As palavras que são reconhecidas automaticamente pelo leitor são chamadas de sight words (e, coletivamente, formam o sight vocabulary). Assim, para ser um leitor fluente, é preciso ter um sight vocabulary bem amplo para que o reconhecimento das palavras seja automático e o leitor não precise pausar em palavras desconhecidas para decodificar seu sentido – o que interrompe a fluência da leitura. E como podemos desenvolver esse tal de sight vocabulary? Através de atividades de extensive reading! Ao lermos um texto qualquer, encontramos uma série de palavras que se repetem ao longo do texto; é o encontro frequente com essas palavras que faz com que elas passem a compor o sight vocabulary do leitor. Assim, a atividade de extensive reading leva à familiaridade com novas palavras e, com isso, à automaticidade e, consequentemente, à leitura fluente. Como explicam Day & Bamford, “the development of a large sight vocabulary can be seen as overlearning words to the point that they are automatically recognized in their printed form. The best and easiest way to accomplish this is to read a great deal”.

Na verdade, atividades de extensive reading não contribuem “apenas” para a leitura fluente: elas consolidam a aprendizagem do idioma estrangeiro e incrementam a proficiência de forma geral. Elas estão associadas a incremento no vocabulário e a melhorias na produção escrita e até na ortografia. Em seu livro The Power of Reading, Stephen Krashen afirma que “reading is the only way, the only way we become good readers, develop a good writing style, an adequate vocabulary, advanced grammar, and the only way we become good spellers.”

Dentre todas as vantagens da realização de atividades de extensive reading, destaco, além do desenvolvimento da fluência na leitura, o ganho de vocabulário. Conforme o leitor progride na leitura do texto selecionado, ele adquire vocabulário incidentalmente. Eu digo “incidentalmente” porque, em atividades de extensive reading, as consultas a dicionários são totalmente desencorajadas – isso quando não proibidas. A aprendizagem de vocabulário novo se dá por inferências de sentido com base no contexto em que o vocabulário é encontrado. Segundo Nagy & Herman, em um capítulo do livro The Nature of Vocabulary Acquisition, de McKeown & Curtis, “incidental learning of words during reading may be the easiest and single most powerful means of promoting large-scale vocabulary growth”.

Para que o leitor possa adquirir vocabulário incidentalmente em atividades de extensive reading, portanto, é essencial que o segundo e o terceiro pilares mencionados, em particular, sejam observados: como o leitor não deve / não pode recorrer a dicionários, é preciso que 1)  ele selecione um material para leitura que não esteja além do seu nível de competência linguística e que 2) ele se satisfaça com menos que a compreensão total do texto (o propósito é compreensão geral, não total). Assim, o material ideal para realizar atividades de extensive reading, caso você ainda não seja proficiente no idioma-alvo, é o que chamamos de language learner literature, ou seja, livros escritos ou adaptados para quem está aprendendo um idioma estrangeiro. Há várias coleções disponíveis no mercado (Macmillan Readers, Oxford Bookworms Library etc.), e há também opções disponíveis gratuitamente na internet, como no site http://english-e-books.net/. Para escolher o material mais adequado para seu nível, faça o seguinte teste: escolha uma página qualquer de um livro que te interessar; se essa página tiver mais de cinco palavras que você desconhece, é preciso escolher um nível inferior a esse (e fazer o mesmo teste). Lembre-se: “building reading fluency is achieved through much practice with easy texts” (Day & Bamford).

Selecionado o material para leitura,  a atividade de extensive reading já pode ser iniciada!  Já que o objetivo é desenvolver a leitura fluente, o leitor deve ignorar as palavras / expressões desconhecidas ou, se possível, inferir seu sentido pelo contexto. Interromper a leitura para consultar um dicionário atrapalha a leitura fluente, que é o objetivo da atividade! Outra opção é ir lendo o texto extensively, sem interromper a leitura fluente, e sublinhando as palavras desconhecidas; depois de concluída a leitura (ou aquela sessão de leitura), o texto pode ser estudado intensively, ou seja, com consultas a dicionários. Mas lembre-se: se o texto contém mais de cinco palavras desconhecidas por página, você provavelmente não está fazendo uma atividade de extensive reading e nem desenvolvendo a leitura fluente. Seu objetivo com a atividade de extensive reading não é “estudar vocabulário”, mas sim aprender a ler fluentemente, com ganhos incidentais de vocabulário. Segundo Day & Bamford, “learning second language vocabulary is important, but it cannot get in the way of learning to read. Students must realize they are practicing reading, not learning vocabulary. When the two are incompatible in reading class, reading must take priority”.

Cheers!

Bibliografia:

Day, R. & Bamford, J. Extensive Reading in the Second Language Classroom. Cambridge University Press, 1998.

Krashen, S. D. The Power of Reading: insights into the research. Libraries Unlimited, 1993.

Nagy, W. E. & Herman, P. A. Breadth and depth of vocabulary knowledge: implications for acquisition and instruction. IN: McKeown, M. G. & Curtis, M. E. (org.) The Nature of Vocabulary Acquisition. Lawrence Erlbaum, 1987.

 

Word of the week é uma publicação semanal de dicas de itens de vocabulário que parecem ter chamado a atenção do examinador em compositions (no quesito Qualidade da Linguagem) de concursos passados. Sempre que possível, ela também traz dicas de usage e de synonyms relacionadas a esses itens. Acompanhe a lista completa no site Vocabulary.com!

thwart

Thwart é um transitive verb que pode ser traduzido como “opor-se a, contrariar, frustrar, impedir”. Veja alguns exemplos:

Fierce opposition thwarted the government’s plans.

The government had been able to thwart all attempts by opposition leaders to form new parties.

Firms usually cut prices as part of the competitive process, not in an attempt to thwart it.

O verbo é normalmente considerado sinônimo de baffle, frustrate foil, mas é importante notar que há algumas pequenas diferenças de sentido (veja mais em synonym discussion of thwart). Alguns de seus antônimos são encourage, fosterpromote.

No que diz repeito a collocationthwart é com frequência usado com substantivos como ambition, attempt, attacks, progress efforts. Por exemplo:

An opposition politician also raised questions about the ability of Jordanian intelligence to thwart attacks.

Miscommunication and distrust will thwart progress in the region.

Cheers!

Fontes:

Corpus of Contemporary American English

Dicionário Porto de Inglês-Português

Foreign Affairs

Longman Dictionaries Online

Oxford Collocations Dictionary

Oxford Dictionaries