Recursos | Translation Part A

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A divulgação dos resultados da prova de terceira fase de língua inglesa se aproxima, e muitos me perguntam sobre a interposição de recursos. Após analisar minuciosamente tanto as provas às quais tive acesso ano passado quanto as respostas da banca examinadora a recursos interpostos, escrevo aqui algumas observações e recomendações no que diz respeito à interposição de recursos na tarefa Translation Part A.

  1. Não use qualquer dicionário

Nas tarefas de tradução, a interposição de recursos depende quase que exclusivamente do uso de dicionários: os recursos mais comuns são aqueles em que o candidato tenta demonstrar para a banca examinadora que sua solução de tradução está correta por meio da citação de definições de dicionários monolíngues, de traduções em dicionários bilíngues, de relações de sinonímia etc. Como qualquer outro tipo de recurso, o recurso com base em dicionários precisa ter como respaldo fontes que sejam consideradas authoritative; a autoridade da fonte torna seu argumento no recurso mais irretorquível.

É aconselhável evitar citar como fontes dicionários simplificados dirigidos a um público estrangeiro, pois, nas palavras da própria banca, eles carecem “de sofisticação lexicográfica por ter como público-alvo aprendizes de inglês”. Assim, evitem citar dicionários escolares (ou learner’s dictionaries), versões abridged de grandes dicionários e recursos online como o The Free Dictionary (esse exemplo em particular foi dado pela própria banca em resposta a um recurso).

Para uma lista de dicionários indicados, sugiro dar uma olhada no Guia de Estudos de 2010 aqui.

  1. Não é porque a sua solução de tradução existe em um dicionário que ela está correta

Ao utilizar dicionários bilíngues em seus recursos, cuidado: você pode ter traduzido uma palavra / unidade de tradução do texto fonte exatamente como sugerido por seu dicionário bilíngue, mas isso não significa que aquela tradução esteja correta naquele contexto.

Explico melhor por meio de um exemplo. Na Translation Part A de 2015, o texto começava assim: “It was once the custom for British ambassadors to write a valedictory despatch at the end of their posting”. De todas as provas que analisei, apenas 3% apresentaram soluções de tradução para despatch que foram aceitas pela banca. Em seus recursos, muitos candidatos argumentaram que “a tradução é considerada correta de acordo com o dicionário xxx”. No entanto, despatch não tinha, de fato, o sentido de “despacho” naquele contexto. Copio aqui uma explicação da banca examinadora:

“O contexto apresentado, aqui, é o de um relatório/comunicado de despedida, uma espécie de balanço final de uma carreira diplomática. Não se trata de um despacho ­ carta oficial ou ofício públicos que um ministro envia a outro. O autor, um diplomata, ao se aposentar, relata fatos ­ alguns deles de natureza jocosa, o que seria inadmissível em um despacho, que vivenciou, expressando opiniões pessoais e, por vezes, nada diplomáticas sobre a população dos países onde serviu. Ademais, tal relatório tem livre circulação entre os funcionários do ministério, o que não ocorreria no caso de despachos.”

Portanto, sempre considere se aquela tradução é pertinente para aquele contexto – em termos de sentido, de naturalidade no idioma de chegada, de ser uma série usual, de respeitar o registro do texto fonte etc. É o contexto que define se uma tradução é adequada ou não, não o dicionário. Ainda nas palavras do examinador:

“dicionários simplesmente arrolam algumas possibilidades de significado de um dado vocábulo, independentemente da existência de um determinado contexto. Tal contexto é que definirá se esse ou aquele vocábulo se adéqua à estrutura morfossintática, à precisão semântica, ao uso etc. da frase em questão. Não se trata, portanto, de mero significado mas de significado naquele contexto específico.”

Por isso, no ato tradutório, é importante que você verifique se:

– compreendeu bem o texto: tradução é, antes de qualquer coisa, interpretação de texto. Certifique-se de que você entende o sentido de cada palavra / unidade de tradução naquele contexto. Pense se a palavra é polissêmica. Dentre as provas às quais tive acesso ano passado, 50% dos candidatos traduziram reviews em “capability reviews” como “revisões”. Review é uma palavra polissêmica, e seu sentido não é de “revisão” naquele contexto, mas sim de “avaliação”.

– sua tradução soa natural em português: correção lexical é um critério de avaliação, e fazer uso de séries usuais em português é algo exigido na prova. É preciso ir além do sentido da cada palavra: o produto final é um texto, e o texto deve ser em português, não em “tradutês”. Na prova de 2015, muitos candidatos (46%, na minha amostragem) tiveram dificuldades com a tradução de render em “the ability to render incisive judgment”. A tradução de render para o português dependia muito da tradução do complemento desse verbo (“judgment”). A banca aceitou traduções como “fazer um julgamento” e “elaborar um julgamento”, mas não aceitou formulações como “entregar um julgamento”– ainda que, em outros contextos, render possa ser traduzido como “entregar”.

– seu texto respeita o registro do texto fonte: esse também é um critério de correção. Tenho um aluno que traduziu wit, no texto de 2015, como “esperteza” e foi apenado. Apesar de argumentar que “esperteza” é sinônimo de “perspicácia” e “sagacidade” (outras traduções que foram aceitas para o termo), a banca respondeu que “o registro não se coaduna com a natureza do texto”.

Dessa forma, no seu recurso, não basta alegar que a tradução consta de um bom dicionário: é preciso demonstrar à banca que ela é adequada ao contexto. Isso pode ser feito, por exemplo, por meio do recurso a outros (con)textos. Tenho um aluno que traduziu, na mesma tarefa, “Whether written with quill” como “Fosse escrito com pena”. Ele foi penalizado (-0,5), como outros candidatos, pelo uso do “com”. Em seu recurso, o candidato alegou que a expressão “com pena” é de uso consagrado na língua portuguesa e citou um trecho que localizou na obra de Machado de Assis. A apenação foi revertida, possivelmente porque o candidato conseguiu demonstrar que a expressão é apropriada (note, também, a autoridade a que recorreu para demonstrar isso).

  1. O recurso à sinonímia *pode* funcionar

Não é raro a banca aceitar alguma solução de tradução após a interposição de um recurso que argumente que a solução utilizada no texto de chegada é sinônima a outras soluções que você já sabe, após ver a correção da prova de colegas, que foram aceitas. Em 2015, um aluno que havia traduzido wit como “sagacidade” foi apenado. Em seu recurso, argumentou que “segundo o Dicionário Houaiss de Sinônimos e Antônimos, ‘sagacidade’ é sinônimo tanto de ‘inteligência’ quanto de ‘perspicácia’”. O recurso foi deferido.

Esse tipo de recurso, entretanto, não necessariamente garante a devolução do ponto, já que, como bem ressalta a banca na resposta a um recurso,

“num dado contexto, palavras sinônimas podem não desempenhar a mesma função e uma pode se adequada e, seu sinônimo, não. A criação de um universo textual, geralmente, inviabiliza a sinonímia absoluta.”

Tendo isso em mente, em seu recurso, não basta destacar a sinonímia: procure demonstrar que a sua solução de tradução não só tem o mesmo sentido que outras que foram aceitas, mas também soa natural, respeita o registro do texto fonte etc.

  1. Citar outras provas *pode* funcionar

Em 2015, alguns candidatos, após estudarem as correções de suas provas e das provas de colegas, notaram grandes disparidades nas correções, no sentido de que algumas soluções de tradução foram aceitas em algumas provas e, em outras, não.  Solicitando a permissão dos colegas, ao interpor recursos, alguns candidatos mencionaram que a tradução que na prova deles foi considerada errada fora aceita na “prova de número de máscara xxxxx”. Na maior parte dos casos (na minha amostragem, ao menos) em que esse tipo de argumentação foi usado, o recurso foi deferido. Por exemplo, o único caso em que vi a banca aceitar a tradução “caráter” para character após a interposição de recursos foi justamente em um recurso que citava outras provas nas quais “caráter” havia sido aceito.

No entanto, destaco aqui que 1) não é possível determinar se esses recursos foram deferidos por causa da menção dessas disparidades, já que eles não consistiam tão somente nesse argumento e 2) nem todos os recursos que seguiram essa linha argumentativa foram deferidos.

*****

A recomendação mais importante para quem vai receber sua prova corrigida na próxima semana é: interponha recursos. Mesmo que você não tenha nenhuma chance de aprovação este ano. Em primeiro lugar, porque essa é uma oportunidade de aprender a interpor recursos (como redigir seus textos, como funciona a plataforma etc.). Em segundo lugar, porque as respostas aos recursos (quando não consistem apenas em “deferido/indeferido”) nos ensinam muito sobre as visões e as expectativas da banca. Por fim, porque avaliar seu desempenho, aprender com seus erros e com os de outros candidatos e entender as posições da banca são formas muito valiosas de começar a se preparar para o próximo CACD!

Cheers!

 

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